Terça-feira, 14 de Abril de 2009
E de amor? Se vive?
Em São Paulo o meu vizinho de casa sofre de amor aos setenta e cinco anos de idade. Aposentado dos correios, tem um filho no exterior e a neta militar. Uma vida sistemada, a idade em que se pensa que tudo já foi visto, revisto e carimbado. Até que a sua rotina foi violentamente interrompida com a fuga da esposa. Quarenta e cinco anos de matrimônio agora são mil espadas de gelo que lhe perfuram o peito. Em poucos meses a mulher perdeu tudo no bingo: dinheiro, jóias e o carro com o qual andavam à missa aos domingos na igreja do Brás.
A velhinha se apaixonou por um homem viciado no jogo como ela. Fujiram juntos para tentar outras vitórias. O velhinho restou.
Pontualmente, na hora do jantar, a sua solidão é forasteira. Pela janela do meu quarto entra galopante o som do lamento das canções de amor que o senhor escuta ao máximo volume. Sou convidada a participar do seu luto. Chitãozinho e Xororó. Zezé de Camargo e Luciano. A música popular adolorada atravessa as janelas das casas do quarteirão enquanto o homem se apaga com doses de cachaça mineira.
Aos setenta e cinco anos de idade o coração ainda é território estrangeiro.
- - - - - - - - - -
Na cidade de Trapani, na Sicilia, uma senhora de oitenta anos lava os pratos do jantar. É pequenina, sorridente, corcunda e os cabelos brancos muito bem penteados. O negro do vestido é a tradição católica siciliana que encontra os pontos de brilho nos longos colares de ouro com a imagem de Jesus que se estendem sobre os seios.
No forno de pedra da sua casa o filho realiza as obras de arte da culinária siciliana com tomates, aliche, azeitonas, calabresa, alho, berinjela, abobrinha - pizzas rústicas para um amplo grupo de amigos e parentes. A pizzada siciliana tradicionalmente calorosa, acolhedora, abundante... as portas abertas recebem o perfume do mar.
Observando a pequena senhora curvada sobre a pia da cozinha me ofereço para ajudá-la. Com um sorriso, gentilmente rejeita a minha compaixão. São mais de sessenta anos de matrimônio, muita disposição e bom-humor. Senhorita, sabe por quê vocè me vê assim alegre e cheia de energia? Porque estou apaixonada. Aquele ali é o meu marido, vê? Doze anos de namoro e cinquenta de casamento.
O senhor se aproxima, curioso. Quiçá que coisa a mulher está contando à moça estrangeira? A timidez lhe colore o rosto quando a velhinha se agarra forte à sua mão mostrando-me as três alianças: casamento, bodas de prata e bodas de ouro.
Daqui à pouco quando vamos para a cama nos beijamos e cada um fecha os olhos e faz o seu sonho. Quando acordamos, nos beijamos e cada um recomeça um outro dia. Sabe por quê sou assim contente? Porque sou uma mulher apaixonada.
E diante da declaração de amor da esposa, o senhor se avermelha...
Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Eisenstein Mexicano




De dezembro de 1930 a fevereiro de 1932 o cineasta soviético Sergei Eisenstein (“A greve”, “O Encouraçado Potemkin”, “Outubro”...) viveu no México, absorvendo realidades e recolhendo material para realizar o filme “Que Viva México”. Antes mesmo de se afirmar como cineasta, em 1924, o talento de Eisenstein se manifestou primeiro na pintura, influenciado desde a infância pela obra de Honoré Daumier e Jacques Callot. A produção de desenhos caricaturais provenientes da veia cômica e grotesca de Eisenstein é interrompida justamente quando o pintor (e então ator) dá início à sua atividade cinematográfica. Uma pausa que, no entanto, é sepultada a partir da sua experiência mexicana: “...depois da renúncia de desenhar e o novo retorno ao desenho – paraíso perdido e novamente reencontrado da gráfica – me ocorreu no México... comecei de novo a desenhar”. O amor e o fascínio pela cultura e paisagens mexicanas esculpiram para sempre o imaginário do cineasta soviético, uma obsessão quase ancestral que chancelou seus posteriores excêntricos comportamentos como, por exemplo, aquele de desenhar figuras mexicanas no storyboard e anotações para “Ivan, o Terrível”, já dez anos depois do seu retorno a Mosca. Ou mesmo, poucas horas antes de morrer, desenhar a lápis em uma folha de papel a tradicional caveira do ritual mexicano para o dia dos mortos. Eisenstein conservou pendurado na parede do seu quarto russo um tapete decorado com motivos da cultura asteca. Com este post pretendo homenagear o México e este grande cineasta, a relação de amor de um artista com uma cultura transcontinental aparentemente distante de si. O mestre da montagem no cinema em um país densamente marcado pela montagem, onde o percorrer o território é contemporaneamente um transferir-se no tempo, nos séculos de história...
Este reencontrar-se mítico que é não é efetivamente ocasional; a síntese de um poema da Vida, da Morte e da Imortalidade (uma referência à tríade que compõe a temática dos filmes de Eisenstein e a principal razão da sua expedição ao México). E apesar de tudo, Eisenstein não conseguiu concluir o seu filme... por diversas razões, a troupe retornou à Mosca e o material restou nos Estados Unidos sendo apropriado para realizações de outros filmes, alguns desses etnológicos e didáticos ... somente em 1979 que Grigori Aleksandrov, que havia participado do projeto original, a partir dos storyboards originais reconstruiu a montagem para “Que Viva México”.

No meu encontro com o México
ele se revelou em toda
a variedade das suas contradições...
Simplicidade da monumentalidade e
incontrabilidade no barroco: nos dois
aspectos seus, espanhol e asteca...
Há dezenas de milhares
se entrevêem as cúpulas... e as cruzes...
Mas não é mérito particular dos católicos.
Os lugares não foram eles a escolher. São
aqueles das antigas pirâmides, um tempo coroado
por templos astecas e toltecas...
Destruídos os templos, aqueles ergueram as suas
igrejas exatamente nos mesmos lugares,
em cima das pirâmides,
com a desculpa de não desorientar
os itinerários das peregrinações, confluentes
há milênios de todos os ângulos do país
aos pés justamente dessas pirâmides...
Afiados espinhos...penetram os corpos
daqueles que amarram nas costas com cordas
troncos verticais dos cactus atrelados em cruz,
e por horas
arrastam-se em direção ao cume das pirâmides
a glorificar as nossas senhoras católicas
de Guadalupe, Los Remedios,
Santa Maria Tonantzintla...
Quem sabe se por honor a Nossa Senhora
ou não justamente a uma deusa mais antiga,
a mãe dos deuses, que só
aparentemente cedeu o seu lugar...
à Mãe de Deus do cristianismo,
mas inequivocamente restou
dentro das sucessivas gerações
dos descendentes dos fundadores do seu culto.


Sobre as áridas rochas
ao redor de Tasco estão estrelas escarlates de flores.
Chamam-nos “sangre de toros”. Possuem
a mesma linha, ardente em marca de cor,
da fonte de sangue na qual arde
a linha brilhante traçada pela espada
do matador que penetra no corpo negro do touro...
Aqui se paga com vida.
O chifre atravessa o homem.
O aço, brilhando, penetra na besta.
Não tem outra saída...
O preço é a morte.
Pagamento o sangue.
Ainda se pelo preço do sangue, aqui o homem
mistura-se com a besta.
Ainda se pelo preço da vida, aqui atraversa
a barreira que os divide
em série irredutíveis.
Caso contrário, qual teria sido a força
de atração deste espetáculo que em um único grito
une multidões de milhares de pessoas
entre os muros agitados dos circos
nos dias de sol das “corridas”?...
Del resto, esta agora é martírio
do matador, agora do touro.
Existe até mesmo o desenho... de um touro
crucificado, perfurado de flechas,
como um São Sebastião.
Não é culpa minha.
É o México que no mesmo elemento
da festividade dominical mistura
o sangue de Cristo da missa matutina
na catedral às torrentes de sangue taurino
da corrida diuturna
na arena da cidade...
Sergei Eisenstein


PS – Os desenhos e textos de Eisenstein postados foram retirados de um livro raro (o comprei em um sebo no centro) “I Disegni Messicani di Ejzenstein”, Beniamino Carucci Editore.
Segunda-feira, 23 de Março de 2009
O Diabo e a Donzela (vídeo)
voltei a postar no blog!
Ufa!
Começo a minha estréia em 2009 (sim, um pouco atrasada digamos, mas de qualquer forma sabemos que a vida começa sempre depois do carnaval... e no meu caso, uma distância transatlântica, um pouquinho depois da quarta-feira de cinzas...)
Dessa forma, uma novidade. Posto o pequeno vídeo que realizei no primeiro ano do curso superior de audiovisual da ECA-USP, ou seja, em 2004. Foi um exercício simples, realizado em mini-dv, roteiro da minha grande amiga Laura Carvalho, e descobri esses dias que o vídeo está no site da FIZ. Infelizmente em baixa resolução.... ma va bene!
E vamos que vamos!
Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
desculpas, sem desculpa.
Para evitar de ficar mudando "às escondidas" a data prevista para o famigerado retorno dos posts neste blog, decidi escrever esta pequena nota de desculpas...
Por razões profissionais, e rigidíssimos prazos que tenho que cumprir, estou atribuladissima, diariamente. Razão pela qual o blog entrou de férias.
Mas que férias longas, não? diria alguém que espera ao menos um sinal de fumaça, um post simples, daqueles meia boca mesmo.
Então digo que ainda assim o meu tempo é curto, e além disso, o meu perfeccionismo não me permitiria. E o meu senso de responsabilidade também, por aquilo que digo e veinculo em meu nome no cyberspaço supersônico, na rede sociotécnica, ecc... :-)
Justamente para fazer jus a estes valores, informo que voltarei a postar no blog no dia 23 de março.
Desculpem-me.
Um abraço!
Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009
férias
Abraços:-)
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
Mamma Calábria
Na Calábria camponesa as casas são labirintos: três, quatro, cinco andares. Na expectativa de que um dia os filhos regressem definitivamente com suas esposas e crianças para habitarem o lar, os pais ampliam o concreto, constroem novos cômodos, ulteriores escadas e tantas janelas em continuidade. Das janelas do primeiro andar acompanham as estações, observam o verde da terra que seca no verão, os tantos pés de figo da Índia com as cabras que pastam ao redor, o vento mediterrâneo que balança as laranjeiras em flor, e a colheita outonal da azeitona. Das suas janelas Mamma Calábria enxerga o mar verde de inverno e o trem que traz os filhos para a festa de Natal. Piuí. Piuí.
Até o dia dos Três Reis Magos Mamma Calábria é em festa, beija e abraça suas criaturas e cozinha para elas como quem cozinha a oferenda para o santo. Calábria colorida, perfumada, saborosa. Mas como a alegria tem prazo de validade fato está que o mesmo trem que atravessou esplanadas e montes como a estrela cadente de Belém, agora parte com os filhos do campo, estudantes e trabalhadores rumo ao norte. As casas calabresas estão sempre no reboco, a reforma dura anos e suas tantas janelas continuarão fechadas. Os filhos da Calábria vêm e vão, poucos permanecem. Mamma Calábria suspira, entristecida, pelas suas enormes casas vazias.
Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008
A festa dos mascarados



Alguns amigos estão organizando uma festa temática: personagens do cinema. Devo dizer que é a caracterização mais previsível possível de um evento organizado por cinéfilos. Não por isso, certamente, esta opção deslegitima o caráter lúdico da experiência.Bem, quem eu quero ser por uma noite? Foi o que pensei para escolher o meu personagem. Em geral se espera que escolhamos alguém com quem nos parecemos ao menos um pouco: os olhos, a boca, os traços do corpo. Ou então uma semelhança mais genérica, simbólica: a personalidade, o caráter, a emotividade ou ideologia do personagem. Desta forma, a escolha pode atingir níveis existenciais, tangenciando, inclusive, as duas esferas citadas (da aparência e da essência): tenho a possibilidade de ser determinada pessoa, mesmo que por um tempo limitado, uma noite, no caso. Quem eu quero ser?
Imediatamente descartei a possibilidade de ser homem, implicaria muito trabalho no travestimento. Uma transformação atribulada para o meu pouco tempo disponível. Dessa forma, desisti de ser Pasolini. Desisti de ser Totó ou Ninetto Davoli em “O que são as nuvens?”, de Pasolini. Não poderia ser Debureau (Jean-Louis Barrault) de “O Boulevard do Crime”, de Carné, nem Michel (Jean-Paul Belmondo) de “Acossado”, de Godard. Devo ser uma mulher e basta. E então? Qual mulher? Não quero ser diva nem musa, ou melhor, não quero ser somente isso. Não quero ser Marilyn Monroe nem Rita Hayworth, não quero ser Vivien Leigh nem Elizabeth Taylor. Eu quero ser outra coisa, não sei. Um ícone mais significativo, político, militante. Uma musa do cinema de vanguarda, ecco.
Eu queria ser Leila Diniz em “Todas as mulheres do mundo”, de Domingos Oliveira. Que mulher forte, potente, sensual. O sorriso tecido com graça transgressiva e velado pela nostalgia. É a nossa expoente brasileira da mulher dos anos 60, moderna, livre, a mulher no mundo. E quem é essa aí? Me perguntariam meus colegas enquanto eu estaria dançando na pista como Maria Alice (Leila Diniz), Paulo José e os amigos dançaram rock'n roll em uma cena inesquecível do filme. Bem, quarenta e dois anos depois de “Todas as mulheres do mundo”, mesmo depois das minhas explicações retóricas, meus colegas continuariam a não saber de quem se trata. Leila Diniz? Boh.... Helena Ignez, igual. “A mulher de todos”, 1969, filme de Rogério Sganzerla. Ma, insomma, che cos’è? Un film? Boh. Brasiliano? Cinema Marginal? Cos’è?... Então me lembrei de Caetano Veloso no documentário “Coração Vagabundo”, de Fernando Grostein, estreado no último “É tudo verdade”, festival de documentários (São Paulo e Rio). Em determinado momento do filme o artista baiano fala sobre a sua tristeza e seu desconcerto quando viajando pelo mundo percebe nas pessoas a ignorância com relação à cultura brasileira e aos nossos artistas. Conhecem o básico, o exportável e basta. Não existe um repertório internacional que nos reconheça. Caetano Veloso fala da dor do cidadão terceiro-mundista quando se depara com esta impossibilidade de diálogo e inserção global, a agonia de compreender que habitamos na periferia do capital e que simplesmente o primeiro mundo não nos (re) conhece. É a dor e baixa-estima do colonizado em razão da indiferença do colonizador (como diz Albert Memmi em seu ensaio “O retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador”).
Se não sou Leila Diniz, nem Helena Ignez quem eu poderia ser?
Então decidi interpretar o espírito do meu travestimento, traduzir a essência do discurso que desejaria proclamar na festa. Quero ser a mulher dos anos 60, em seu auge. A libertação das mulheres. Se hoje na Itália se está debatendo a anulação da lei do aborto aprovada nos anos 70, quero andar na contramão e ser a mulher que participou ativamente das manifestações que possibilitaram a conquista desse direito (infelizmente no Brasil ainda não conseguimos a aprovação desta lei, ainda que muitas de nossas mulheres tenham lutado e lutam muito para isso). Diariamente a voz do Vaticano urra contra o uso de preservativos e contraceptivos nos países católicos (impossível esquecer o discurso reacionário de Bento XVI em visita ao Brasil no ano passado) e eu quero ser a mulher, cristã ou não, que conquistou o direito à liberdade social e sexual. A liberdade de pensamento e sentimento, a mulher livre para decidir, a mulher no mundo, do mundo, pro mundo, não domesticada.
Então vou ser Anna Karina, atriz e musa da Nouvelle Vague francesa. Primeira esposa de Godard. Protagonista dos seus primeiros filmes. Impossível dissociar Godard, Nouvelle Vague e Anna Karina. Combinarei dois looks e sintetizarei contradições: “Uma mulher é uma mulher”, 1961, e “Viver a Vida”, 1962. Em ambos os filmes, o olhar inovador de Godard e certa ode à mulher moderna, suas idiossincrasias, fragilidades e campos de força. No primeiro, Anna Karina enérgica, audaz, a explosão de cores, sons e gestos. No segundo, Anna Karina indiferente, a sobriedade às avessas. A tal da graciosidade velada de nostalgia que comentei sobre Leila Diniz. Arranjei o vestido, o casaco vermelho, a peruca de cabelos curtos.
Decidido. Na festa dos mascarados serei Anna Karina em duas versões para todos aqueles que não me perguntarão quem sou eu. Ela é o rosto estampado da mulher moderna do primeiro mundo, reconhecido, valorizado, não há necessidade de explicação. Mas para os demais, os íntimos, os mascarados não domesticados, aqueles anti-conformistas que enxergam o além-mar e sabem ler as fissuras da estrutura eurocêntrica, eu serei Leila Diniz e Helena Ignez. Na festa dos mascarados serei alforriada porque não precisarei explicar nada a ninguém.
Domingo, 30 de Novembro de 2008
buon camino, compañero!
Dessa forma, através das minhas fotografias convido os leitores a conhecerem o Santiago dos meus olhos. Para evitar descrições nas imagens antecipo que retratam duas extensas localidades: as comunidades autônomas León-Castilla e a Galícia, onde, na província de La Coruña, está situada a cidade Santiago de Compostela (a última fotografia é a catedral de Santiago). Em linhas gerais, a primeira região é caracterizada, principalmente, por extensas áreas planas, de plantação de trigo, cevada, girassol... a segunda, uma região montanhosa, é caracterizada por bosques, montes, muito verde e flores.
Além disso, dois parênteses: uma imagem por testemunha - eu e meu amigo Felipe com a prova do crime (quatro quilos de ameixa que colhemos de uma árvore no jardim de uma casa aparentemente abandonada). E em Astorga, dois monumentos: o palácio realizado por Gaudì para um bispo espanhol e uma igreja católica com as marcas da Inquisição - buracos na parede por onde os prisioneiros "hereges" recebiam alimentos dos peregrinos que passavam por ali.
Entonces, é hora... Buon Camino, compañero! (este é o "slogan" do peregrino...)
Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
Lições de Cinema
No livro, Piccolo explica esse seu vício de colecionar anotações sobre métodos de escritores famosos relatados em entrevistas ou compilados em livros teóricos. Desde pequeno ele queria ser escritor e durante a adolescência a intenção de juntar as centenas de conceitos sobre o ofício encontraria eco na fase adulta, momento em que desenvolveria a sua própria técnica artística.
Recordando-me desta conduta de Piccolo decidi postar no blog reflexões de alguns renomados cineastas sobre a sétima arte. No ano passado, a editora italiana Castoro publicou “Lezioni di cinema”, a compilação transcrita das lições de cinema do Festival de Cannes realizadas por alguns mestres do cinema mundial entre 1991 e 2006. Não sei se o livro também foi publicado no Brasil (fiz uma rápida pesquisa na internet e não encontrei nada). De qualquer forma advogo: este livro merece ser lido.
Enfim, confesso: assim como Piccolo eu também coleciono reflexões. Mas de cineastas que admiro. Isto por razões várias que não somente a busca por uma metodologia própria, mas, e principalmente, a possibilidade de haver instrumentos sólidos para interpretar e compreender melhor as suas obras. Abaixo, uma rápida passagem pelas lições de cinema de Cannes...
O diretor deve consentir-se solitário. Retirar-se na sua solidão como quando Akira Kurosawa prepara um enquadramento. Esta dimensão de solidão da criação é uma coisa muito difícil de ser aceita no cinema.
Em um filme que classificadamente se divide em três etapas (escritura, filmagem e montagem), prefiro aquilo que existe antes da escritura, aquele estado em que se procura o início de um filme, em que se viaja para encontrar uma paisagem na qual se sabe que é possível fazer o filme... Ainda não existe nada, existem elementos fragmentados, pequenas estórias que foram vistas, ou uma paisagem da qual nos recordamos, ou um ator com quem temos vontade de trabalhar. E depois, o resto, tudo aquilo que vem depois, principalmente a escritura, me dão medo e não me agradam. Eu não gosto nem mesmo das filmagens, são muito angustiantes. A montagem, ao contrário, é magnífica. Mas entre a montagem final e esta liberdade do ponto de partida no qual ainda não existe nada, eu não me sinto bem.
WIM WENDERS
Procuro sempre a música para o filme antes de começarem as filmagens para que ela me sirva de referência. A música é constantemente presente no meu espírito e dessa forma é possível construir o ritmo de um filme de modo que Chris Doyle (diretor de fotografia) saiba como fazer dançar a câmera. Trabalhar com Chris Doyle é como trabalhar com um músico de jazz. Não se fala de iluminação, não se fala de ângulo do enquadramento, porque trabalhamos juntos há mais de dez anos e nos conhecemos à perfeição. A ele basta conhecer o ritmo e a cor do filme – não o vermelho ou o azul, mas a sensação que proporciona o filme, a sua emoção.
Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
Bandido anos 2000

Quarenta anos se passaram e o grito aflito do Brasil ainda é possante. O berro da miséria aflita ecoa no terceiro mundo: América Latina, Ásia, África, Oriente Médio, Europa do Leste... Mas por questões históricas o rugido do nano de Sganzerla se estende hoje sobre outros territórios, ultrapassando as fronteiras do subdesenvolvimento. A cada barca clandestina naufragada nas costas do primeiro mundo com dezenas de desesperados utópicos eu escuto o grito de Sganzerla. A cada imigrado humilhado e massacrado, aglomerados de homens-ratos nos bueiros internacionais, eu escuto o grito de Sganzerla. Dezenas de seres humanos que atravessam desertos e ultrapassam barreiras em busca do sonho americano. O urro profético da humanidade capitalizada outorga a governos neonazistas a solução para a luta de classes contemporânea. Prezado Sganzerla, ironicamente o seu grito assume hoje outra direção, que, na verdade, não é outra, mas a contra-mão da primeira: o primeiro mundo vai explodir! É isso que penso cada vez que caminho pelas ruas...
Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
Macunaíma (re)engolido pelo gigante

PS - o texto também foi publicado na Cinequanon
O Festival Internacional de Cinema de Roma inaugurou a sua terceira edição na quarta-feira, 22.10, com uma festa brasileira na Piazza Navona. Com direção artística do gringo da Tropicália Arto Lindsay e cenografia do artista plástico brasileiro Ernesto Neto o evento contou com a participação de Vanessa da Mata e os blocos Ilê Aiyê e Spok Frevo Orquestra. Um carnaval brasileiro de outono em Roma era a proposta da curadora da sessão Focus sul Brasile, Gaia Morrione, para a abertura do festival de cinema que está se afirmando no país. Quando começou se chamava Festa Internazionale di Roma e este ano mudou o nome para Festival Internazionale del Cinema di Roma. O evento está alçando vôos... mas a linha ideológica permanece a mesma: uma festa de cinema popular, com filmes que agradam o grande público (existe também o panorama “outro cinema”, com curadoria de Mario Sesti, que oferece ao espectador filmes mais experimentais). A premiação é decidida pelo voto do público e no ano passado o filme vencedor foi o americano “Juno”, de Jason Reitman.
Muito bem, e nesta história toda o que tem a ver o carnaval brasileiro em pleno outono na Piazza Navona? Pois bem, desde o ano passado o festival dedica um panorama à tradição de um determinado país. A intenção verbalizada pela curadora Gaia Morrone é a de recolher fragmentos que considera significativos da cultura deste país e apresentá-los ao público através de eventos cinematográficos e musicais, debates, mostras, etc. O ano passado o Focus foi a Índia e este ano esta sendo a vez do Brasilzão mostrar a sua cara para os gringos. Vai que é sua Brasil il il il ! Sejamos claros: em poucas palavras, esta sessão se mostra interessada em revelar o exotismo de países emergentes com quem a Itália mantém relações econômicas, sociais e culturais. Aliás, quantos imigrantes indianos existem no país? E brasileiros? A escolha da nação homenageada na sessão Focus não é, portanto, algo casual. Além disso, propõe de maneira ostensiva um olhar comercialmente vulgar sobre a vitalidade, a criatividade e a contemporaneidade na produção artística de nações classificadas como terceiro-mundistas. Não é à toa, portanto, que tais iniciativas sejam taxadas pelo próprio público europeu como “evento étnico” (termo inventado pelos anglo-saxões para deslegitimar as manifestações artísticas da periferia do capital).
Voltando ao Focus sul Brasilzão: qual seria a previsibilidade em um evento dedicado ao Brasil no exterior? Quais seriam as temáticas predominantes que se consideram dignas de serem as nossas porta-vozes internacionais? Futebol, favelas, samba, carnaval, bossa-nova e candomblé? Acertou. Além disso, Caetano Veloso para os mais cults. Esta é a festa do Brasil na Festa do Cinema de Roma. Predominantemente banal e financiada pelo Ministério da Cultura brasileiro e Ancine.
No que diz respeito ao cinema. Perante o quadro da produção cinematográfica abundante e plural que caracteriza nossos últimos anos (sábado foi publicado na "Folha de SP" que só a Mostra de Cinema de SP este ano está exibindo 70 filmes brasileiros), a curadoria romana, auxiliada pelos críticos brasileiros Pedro Butcher e José Carlos Avellar, priorizou documentários sobre nossos artistas e intelectuais. De 22 filmes selecionados para representar o Brasil em Roma, 15 são documentários dentre os quais 12 são focados em expoentes de nossa música popular brasileira e de nossa produção intelectual. Não pretendo de maneira alguma deslegitimar tais documentários de representarem dignamente o nosso cinema, e tampouco questionar as suas qualidades artísticas. A questão que merece ser apontada nesta seleção é a sua abominável ideologia: escolhas que explicitam o caráter didático e mercantilista da curadoria tendo por fim a exportação da música popular brasileira, principalmente, e a reiteração de nossos estereótipos culturais. Uma curadoria, portanto, que não pretendeu estimar o cinema brasileiro, que passou longe de Beto Brant, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Lais Bodansky, para citar alguns nomes importantes da cena contemporânea, e preferiu investir na divulgação vulgar de expoentes (ainda que magistrais) da nossa cultura. Para se camuflar a sessão recebeu o timbre de Retrospectiva e está ostentando nas telas italianas todos os nossos estigmas, com a funesta desculpa de querer educar o público ignorante. A lista é farta: documentário sobre futebol, sobre Tom Jobim, sobre a bossa-nova, sobre Vinícius de Moraes; documentário sobre Paulinho da Viola, sobre Nelson Freire, sobre Sérgio Buarque de Holanda, sobre Tom Zé; documentário sobre o tal império baiano: Caetano Veloso, que também realizou um show na cidade, sobre Maria Bethânia e outro ainda sobre os Doces Bárbaros (além da ficção “Ó Pai Ó”, puro axé e exotismo no Pelourinho, produzido pela ex-mulher de Caetano, Paula Lavigne, que também assina a produção do documentário sobre o ex-marido); tem também documentário sobre Oscar Niemayer e sobre o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, que apesar de tudo, é merecidamente homenageado com a exposição de suas fotografias realizadas no nordeste brasileiro nos anos 40 e 50.
Sei que vivo a contradição do meu nacionalismo. Não posso negar a ostensiva emoção que sinto ao reassistir a estes documentários em sala estrangeira, seja porque admiro a qualidade de seus discursos estéticos, seja porque revivo com eles a minha história cultural. Não posso ignorar o orgulho que experimento quando presencio a divulgação de meus ídolos conterrâneos em território internacional. Mas apesar de nacionalista não sou estúpida. Não posso concordar com a instrumentalização do cinema brasileiro, com a sua subjugação por uma curadoria pouco disposta a valorizá-lo e muito interessada em estigmatizá-lo. Apesar de patriota não posso consentir que fortaleçamos para as consciências internacionais o retrato do colonizado, como o define Albert Memmi em seu ensaio “O retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador”. Neste sentido, esta mesma curadoria possui duas inexoráveis facetas. Uma é a italiana, que reproduz o retrato do colonizador e não se constrange por isso. Ao contrário, faz questão de sublinhar o caráter étnico do evento. A outra faceta, no entanto, é mais grave: é aquela representada pelos membros brasileiros cujos nomes foram anteriormente citados. Essa curadoria tropical revela em si uma nociva e mítica contradição: ao selecionar obras que divulgam nossos artistas e nossa cultura no velho continente, ou seja, a ação quimérica de tentar extinguir nosso anonimato e nos inserir no centro do capital, tragicamente reproduziu o retrato do colonizado. O que esta curadoria fez através do nosso cinema foi enfatizar os estereótipos culturais que nos mantém atrelados à condição de nação colonizada, subdesenvolvida, e, portanto, à margem do capital. Na festa do Cinema de Roma o Brasil comemora o seu complexo de dependência, sua colonizabilidade. No carnaval do cinema de Roma não é dia de festa não senhor!
(Imagem: Urutu. Tarsila do Amaral, 1928)
Domingo, 19 de Outubro de 2008
"Mamma Roma"

Um filme humanista
Mamma Roma é um filme notoriamente humanista que personifica na figura de uma prostituta e seu filho o drama do subproletariado italiano dos anos 60. A prostituta é Mamma Roma, interpretada por Anna Magnani. Uma mulher enérgica, explosiva, que sonha se libertar da opressão de seu cafetão e reaver um relacionamento profundo com seu filho Ettore. Mamma Roma saiu do campo e foi para capital romana. Lá trabalha numa banca de legumes e de vez em quando se prostitui por exigência de Carmine, o gigolô. Todo seu investimento financeiro e emocional é voltado para Ettore: matricula-o num colégio, arranja-lhe trabalho, compra-lhe presentes, dá-lhe dinheiro, cuidado, amor. Mamma Roma é a mãe apaixonada que se sacrifica por seu filho.
Ettore é um garoto abandonado de si mesmo. Não se interessa por nada que o mundo lhe possa oferecer. Larga a escola e o emprego que a mãe lhe arranjou. Caminha pela cidade com seu grupo de adolescentes marginais. A única coisa que mobiliza a personagem é a paixão que sente por Bruna, uma garota sexualmente liberada.
A narrativa se desenrola a partir da relação mãe e filho, dos conflitos, sentimentos e expectativas que surgem desse embate, considerando, evidentemente, tratar-se de personagens de baixos estratos sociais.
A história se passa na periferia de Roma. As personagens, assim como aquelas dos filmes neo-realistas, perambulam pelas ruas. Nessa perambulação, a câmera focaliza detalhes arquitetônicos e sociais da cidade: cortiços, ruas, praças, monumentos, comércio, etc. Alguns registros são quase documentais. É o caso, por exemplo, da cena em que Ettore vende os discos da mãe num comércio ilegal: o cenário naturalista e o modo como o comerciante negocia a mercadoria com o garoto ilustram uma realidade existente na então periferia de Roma.
O humanismo no filme transita entre a denúncia social e a busca de um sentido existencial para o homem. A denuncia social é explicitada pelas más condições de trabalho, moradia e assistencialismo que todas as personagens enfrentam. Seja Mamma Roma, sejam Biancafiore, os amigos de Ettore ou Carmine, todos são condenados por sua classe social. São marginais fadados ao sofrimento, à miséria, à morte. Por outro lado, o filme também apresenta um humanismo filosófico que, alicerçado na concepção de sacralidade, busca significados existenciais para o ser humano. A personagem que mais transita por essa investigação é Ettore. Ele é dono de uma pureza mítica, uma personagem desinteressada dos jogos e necessidades do mundo. Sua candura e romantismo atingem significado quando se envolve com Bruna e tenta protegê-la. Para Ettore, um possível sentido que sua vida possa ter está na paixão que sente pela garota. A cena mais representativa desse humanismo filosófico é a que Ettore dá a Bruna um colar de ouro. Após roubar os discos de sua mãe e vendê-los no comércio, Ettore compra o colar prometido para Bruna. Ao recebê-lo a garota olha o pingente e diz: “Nossa Senhora e o menino Jesus!” e o coloca no pescoço. Um plano próximo de seu colo mostra sua blusa decotada e parte dos seios aparecendo. Bruna é uma garota sexualmente liberada. “Todos conhecem a Bruna, até no Japão já ouviram falar dela”, comenta um amigo de Ettore. No entanto, o garoto em sua inocência simbólica entrega-lhe a Nossa Senhora com o Menino. Essa sacralização da personagem ilustra a visão que Pasolini tem dos marginais: embora veja neles a resultante mortificada das lutas sociais, reconhece, no entanto, que nesta aparente deterioração existe uma peculiar sacralidade.
A estética
O primeiro plano do filme é um plano médio de três porcos arrumados com laços e chapéu sendo empurrados por uma vassoura pelas mãos de uma mulher: é Mamma Roma, que em over diz: “Carmine!”. O plano seguinte é um geral da mesa da festa de casamento de Carmine em que se vêem muitos convidados. A voz over continua: “Carmine, mostra a sua esposa aos nossos irmãos!”. Então, Mamma Roma apresenta os porcos. Carmine responde: “Tá! Os irmãos da Itália?”. Mamma Roma ironiza: “Quê? Qual Itália?”. Essa primeira seqüência é contundente e de um teor político-ideológico forte. Os porcos são apresentados como parentes do noivo. Isso permite uma caracterização animalizada dos camponeses italianos. No entanto, em seguida, os porcos são apresentados como irmãos da Itália e a ironia que se estabelece no diálogo permite associar os animais a figuras de poder italianas. Mas essa idéia ainda é embrionária. Em 1970, Pasolini realizará Pocilga, onde vai relacionar diretamente os porcos à elite nazista (e fascista italiana).
Ainda na seqüência do casamento Pasolini constrói um diálogo a base de cantos. Quando Mamma Roma comenta que a missa católica deveria ser cantada, alguém diz: “Mamma Roma, cante alguma coisa”. Inicia-se então um diálogo cantado entre Mamma Roma, Carmine e Clementine, sua noiva. É um diálogo de ameaças, desabafos e provocações pessoais. É interessante que Pasolini, no início dos anos 50, escreveu um livro chamado “Il sogno di uma cosa” (publicado somente em 62) no qual recria numa linguagem poética o universo camponês, onde a canção tem um papel fundamental. A seqüência comentada acima resgata um pouco desse universo romântico e idealizado que Pasolini construía sobre o campo, presente em muitos poemas oferecidos à sua mãe (camponesa, nascida em Friuli).
A decupagem de Pasolini não valoriza a construção espacial. Em alguns momentos o espectador perde a noção do espaço da cena e a localização das personagens nesse espaço. É o caso da cena do casamento em que diversos planos próximos de pessoas conversando são intercalados com o plano geral do salão. Os planos próximos ficam soltos no espaço e não conseguimos localizar as personagens quando o quadro abre para o geral. No filme é recorrente a continuidade do discurso ser simultânea à descontinuidade espacial...
Outra característica marcante da decupagem de Pasolini é a valorização de closes nas personagens e o seu isolamento no quadro. Com exceção de alguns planos conjuntos, a maioria dos diálogos se dá em campo-contra-campo. São poucos os planos em que as personagens conversam no mesmo quadro. Essa característica, aliada a descontinuidade espacial, torna a montagem um elemento importante e fortemente presente na narrativa do filme. É o caso da cena em que Mamma Roma vai buscar seu filho no parque de diversões. De um lado existem os planos da mãe, e de outro, os do filho. Ela o vê e o segue. Ele anda e conversa com os amigos. Em seguida, mãe e filho conversam em campo-contra-campo. O fundo do quadro nunca é o mesmo. Mamma Roma e Ettore parecem, em diversos momentos, estarem em lugares diferentes. Não há sequer um plano em toda a seqüência que abarque conjuntamente ambas a personagens, situando-as no espaço. A montagem de Nino Baragli é estilizada e evidente. Em meados dos anos 60 Pasolini desenvolve o conceito de “cinema de poesia”, que, grosso modo, seria o cinema que transparecesse a sua linguagem, que evidenciasse seus mecanismos, principalmente a câmera e a montagem. Esta teoria foi proclamada pela primeira vez no Festival de Cinema de Pesaro em 1965 e está contida no seu livro “Empirismo Eretico”. Mamma Roma, no entanto, realizado em 1962, já é um filme poético. A montagem de Nino Baragli salta aos olhos, ainda que busque uma linearidade narrativa.
Uma seqüência importante do ponto de vista da linguagem fílmica e da construção dramática é a que Mamma Roma e Ettore dançam tango no quarto. É uma seqüência que se preocupa com a construção espacial, visto que as personagens percorrem todo o quarto. A maioria dos enquadramentos possui mãe e filho num mesmo plano, elemento escasso no filme, e dessa forma os diálogos se dão com as personagens abraçadas, próximas. É um momento de intimidade, amizade e cumplicidade entre elas. A música tema do filme, “Violino Cigano” na voz de Joselito, colabora para transformar essa seqüência num momento de lirismo e poesia.
Um plano-seqüência ímpar no filme é quando Mamma Roma sai às ruas para se prostituir. Ela está sentada com seu grupo de amigas quando impulsivamente se levanta e diz que vai embora. Mamma Roma começa andar e é acompanhada por Biancafiore. Depois Biancafiore se despede e se afasta. Entra no quadro um policial, que ocupa o lugar da amiga que se foi, ambos andam e conversam. Mamma Roma lhe conta a sua vida e em seguida o policial é substituído por outro homem, que caminha ao lado da personagem, continuando a conversa já iniciada. Por último, um grupo de quatro pessoas substitui o último homem e caminha com Mamma Roma até que a seqüência acabe. Durante todo o trajeto, enquanto Mamma Roma caminha e as personagens entram e saem de quadro, a câmera realiza travellings de afastamento e movimentos circulares que se aproximam de uma dança. O plano-seqüência dura quatro minutos e meio. A elaboração pictórica de Pasolini é ostensiva: as personagens, no primeiro plano, são iluminadas e destacadas de um fundo negro. Nesse fundo, dezenas de pontos luminosos provenientes dos postes de luz formam desenhos abstratos. A composição espacial é abolida. Conforme a câmera baila, o fundo do quadro parece adquirir liberdade e adquire movimentos ora mais velozes ora menos, com os flashes de luzes rabiscando no espaço fantástico. Essa é uma seqüência que faz jus ao conceito de “cinema de poesia”, já comentado acima.
O sagrado como condição ou destino de suas personagens é um traço marcante na obra de Pasolini e, especialmente, em Mamma Roma, Accattone, A Ricota, O Evangelho Segundo São Mateus, Gaviões e Passarinhos, O que são as nuvens?, A Terra Vista da Lua e A Sequência da Flor de Papel. Como já foi dito, Pasolini vê no subproletariado a resultante mortificada das lutas sociais aliada a uma pureza simbólica. Este sentimento do sagrado é explicitado por alguns elementos estéticos. A fotografia extremamente luminosa de Tonino Delli Colli é um deles ( Tonino também fez a fotografia de O Evangelho Segundo São Mateus, utilizando-se dos mesmos princípios de iluminação). O sagrado-figurativo também é evidenciado pelos enquadramentos que enfocam as personagens como figuras de arte sacra, como por exemplo, a cena do casamento de Carmine. O plano geral enquadra a mesa comprida com os convidados. A parede, ao fundo, possui uma decoração que simula uma porta ou um vitral circular típicos de Igrejas Católicas. É exagero dizer que o quadro ilustra a Santa Ceia, mas não é errado dizer que há uma sacralização na imagem. O momento de maior apelo metafísico é a última seqüência do filme, em que Ettore morre. O garoto foi pego em flagrante, roubando. Por isso vai para a prisão. Como está doente, fica numa ala para recuperação. Ao ouvir um homem cantando “violino cigano”, Ettore se emociona e reage impulsivamente querendo sair do lugar para se encontrar com sua mãe. Como punição pelo mau comportamento, o garoto é preso em uma solitária, onde passa a noite inteira. Ettore é amarrado deitado, com os braços abertos e as pernas unidas, lembrando Cristo na cruz. A sala é escura, e pela janela entra luz suficiente para iluminar a criatura, que grita, lamenta e chama por sua mãe. “Mamma , estou morrendo... por quê eles fizeram isso comigo?”. A montagem intercala planos de Ettore agonizando e planos de Mamma Roma pensando no filho preso. Na solitária, a câmera realiza três movimentos semelhantes que valorizam a composição sacralizada da imagem: ela sai de um plano fechado no rosto de Ettore e num trevelling de afastamento cria uma imagem da cruz em perspectiva e faz uma referência explícita à pintura quatrocentista de Andrea Mantegna: “Cristo Morto”. A cada movimento da câmera de Pasolini a condição física, psíquica e emocional do garoto é diferente, até que no último movimento Ettore já está morto. A trilha sonora de Vivaldi sacraliza ainda mais o momento. O espectador se sente comovido, apiedado. Ettore foi apresentado como um garoto carismático, dono de uma candura emblemática. A estrutura repressivo-social o eliminou, assim como fez com Jesus Cristo. O último plano do filme é Mamma Roma, desesperada com a morte do filho, olhando pela janela de seu apartamento a cidade de Roma. O que vê? Um plano geral fixo mostra prédios e construções romanas, uma cidade que está se expandindo para as periferias. Mas no centro do quadro, afirma-se impotente a Catedral de São Pedro. E Mamma Roma a olha com uma expressão desesperada, é como se questionasse sua fé ao mesmo tempo em que se resigna diante de Deus e do destino que lhe confiou.
É muito comum na obra de Pasolini o uso da alegoria e da metáfora. Em Mamma Roma se poderia dizer que a personagem que leva o nome do filme é a personificação da cidade de Roma, cujos filhos morrem como Ettore, oprimidos pela miséria e injustiça social.
Terça-feira, 14 de Outubro de 2008
A propósito de liberdade
No filme, Maria, a protagonista loser, está apaixonada por Manlio, que a despreza. Quando vai à casa de Betsy entregar-lhe a hóstia e rezar a Ave Maria, Maria cai em prantos e pede conselho à velha senhora. Betsy foi orientada: finja que é realidade, que Maria é uma sua amiga e que está te contando um problema. Tente ajudá-la.
Pronto. Betsy, que não é atriz profissional, mas uma idosa em final de vida que se esquivou da solidão na ocasião, interpretou um personagem estupendo que, na verdade, era si mesma. Foi incrível. Era como se a ação de interpretar a libertasse da responsabilidade de seu próprio caráter. Como se a sua intimidade real legitimada pela câmera do cinema fosse transportada espontaneamente ao campo da ficção. Veio fora um diálogo impressionante e inesperado:
- Maria, você é uma pessoa doce, maravilhosa, sensível. Imagino o quanto está sofrendo por aquele cretino. Manlio! Que nome! Esse Manlio aí vale a pena é? Eu acho que não. Aposto que ele é duro de coração. É isso. Duro de coração! E quando um homem é duro de coração só tem uma saída: dar-lhe uma porrada e bye bye. Enche esse Manlio de porrada e vai embora cantando: Tu non sei l’amore... non sei l’amore... (uma canção italiana antiga muito popular).
Em outra cena, Maria está feliz porque Manlio a convidou para uma viagem que para ela é como se fosse uma lua de mel – fazer uma peregrinação com uma velha que está para morrer. E então Betsy lhe diz com a sua voz aguda de quem tem oitenta anos e usa dentadura:
- Ah Maria, que lindo. Uma viagem com Manlio! Estou contenta por você. Olha, faça a peregrinação direitinho e chegando lá agradeça a Nossa Senhora viu? Lembre-se de rezar e agradecê-la por tudo. Mas olha, vou te contar uma coisa: é claro que em uma peregrinação o sentimento cristão é o que interessa, rezar, agradecer a Nossa Senhora, mas sabe Maria, você não pode se esquecer que o sexo também é muito importante. É... sexo... sobre esse tal de sexo as pessoas nunca falam, você já percebeu? Nós, mulheres somos muito mal informadas sobre sexo você não acha? E as esposas então, coitadas, tenho dó! Na verdade o sexo é uma coisa muito importante Maria... claro, não é que eu saiba muito sobre ele. É uma pena! Sabe, na China existem laboratórios de sexo em que as mulheres vão e recebem informações, explicações, tudo! Aqui o que temos? Nada! Se eu fosse jovem eu pegaria imediatamente um avião para a China e voltaria para cá experiente, praticamente uma professora!
Foi um momento hilariante para todos nós, inesperado, vivo. Betsy foi aplaudida durante minutos, assovios e tudo o mais. Ela sorria, estava contente de ter interpretado, de ter sido reconhecida, nossa musa. E com timidez altiva nos revelou o sonho não realizado de ter sido atriz...
Entretanto, no dia seguinte, a velhinha nos ligou. Por telefone ponderou: Sabe, estava pensando que ontem fui incoerente no meu diálogo com Maria. Maria estava sofrendo porque Manlio não a amava. Mas não é com violência que se resolve essas coisas do coração. Não acho que Maria deve espancá-lo, mas tratá-lo com amor e respeito... Deve cantar assim pra ele: "non mi lasciare, amore, amore... dovunque andare ti cercherò..."( não me deixe, amor, aonde você for te procurarei... - uma música antiga italiana). E mesmo o sexo, penso que seja algo sagrado, ligado ao matrimônio... E por aí foi... Betsy, que não é atriz, mas uma idosa em final de vida que se esquivou da sua solidão naquela ocasião, estava em culpa de ter interpretado a si própria, decodificando improvisadamente a sua ideologia reprimida. Mas nesta contradição do ser, coabitando-se autor e personagem, Betsy optou por não legitimar-se. Pois é, terreno intricado para uma senhora: depois de oitenta anos de vida afrontou os valores culturais da sua sociedade. Não agüentou. A liberdade é um osso duro de roer...
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
dança (texto)
Margarida cresceu. Acreditava que teria por amante um homem elegante como o boneco de fraque que girava no salão da sua caixinha de música. Mesmo manca de uma perna sentia-se apta a dançar com ele por toda a vida. Gymnopedie lhes faria resvalar, ir, voltar, virar, revolver na enorme sala de vidro. Não deu. Gymnopedie traiçoeira, nefária, maldita.
Margarida envelheceu solteira com a caixinha de música sobre a cabeceira da cama. Foram setenta anos de longas noites em que a abria buscando distração: Gymnopedie fugida a conduzia por lugares quiméricos. Gymnopedie alquimista, utópica, fascinadora.
Naquela noite de menos três graus Margarida não conseguia dormir. Tossia, suava, passava, sozinha. Com a cabeça escorada em medos resolveu abrir a caixinha. Ela usava um vestido vermelho rodante. Um homem elegantemente a tomou nos braços, girando com ela pelo salão de vidro. A claridade cintilava nos detalhes do seu vestido que se agitava alforriado. Gymnopedie emancipada, bendita, serenava. A velha senhora não existia mais.
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Pequenina
Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008
Parti para a Sicília depois de brindar com Birri

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
Parti para o Festival de Veneza
... Será um esquema alternativo de hospedagem: ficaremos acampados em Lido mesmo, em um camping não muito longe do complexo de salas da Biennale d’Arte...
...O que estou indo buscar em Veneza em 2008? Um diálogo com Veneza-68, que foi um marco significativo na história do cinema italiano e é um tema de estudo que particularmente me atrai...
PARA LER O ARTIGO NA ÍNTEGRA ACESSE O SITE: http://www.cinequanon.art.br/.
PARA ACOMPANHAR A COBERTURA CLIQUE: http://www.cinequanon.art.br/
Um abraço!
Domingo, 24 de Agosto de 2008
Guimarães Rosa tinha razão
Vínhamos pelo Caminho de Santiago, deixando para trás o pequeno vilarejo rural, todo feito de pedras. A terra batida respondia ao excesso de sol levantando uma poeira densa feito farinha de rosca. Caminhávamos silenciosos quando encontramos a dita cuja. Uma senhora vaca, assim preta, assim grande, que espiava curiosa por entre as fendas do curral os peregrinos que passavam por ali. Os bezerros já estavam grandes o suficiente para estarem no canto por conta própria, a vaca queria mesmo é se socializar, mexer com aqueles que passavam ali a sua frente. Pecado que caminhavam apressados, não lhe davam atenção... os peregrinos do século vinte e um já são geneticamente motorizados. Nós paramos, e ali me lembrei de Guimarães Rosa.
Enquanto eu acariciava a cabeça da vaca percebi que ela parecia um cachorro... os cachorros que são assim, mexem a cabeça de um lado para o outro, para a frente, para trás, como se dissessem “Mais para cá”, “Agora mais para aqui”, “Isso, aí!”, orientando o trajeto das nossas mãos no gesto de afago e estampando na cara um prazer incontrolável. A vaca começou a me lamber: uma lambida de cachorro, alegre, afetuosa, histérica. Uma língua áspera que na ponta faz uma voltinha para fisgar o capim! Upa! A língua da vaca laçou o meu braço! Olé! E neste instante de comunhão ela me olhou, e dos seus olhos escorriam lágrimas em fluxo contínuo. “Felipe! Olha só aqui! A vaca está chorando!”. E Felipe, abandonando os bezerros que também estavam muito disponíveis para amizade, veio olhar a vaca que chorava. “Putz! É mesmo!”. E a vaca chorava, chorava, chorava...
Em “Sagarana”, de Guimarães Rosa, no conto “O Burrinho Pedrês”, um dos vaqueiros conta a história de um fazendeiro muito ruim chamado Madureira. Quando ele morreu, na noite do velório, os bovinos ficaram a noite inteira chamando no curral:
Os bois: “Ô Madureira, Madureira!”
As vacas respondiam: “Foi pros inferno, foi pros inferno!”
E assim repetiam durante toda a noite do velório. “Ô Madureira, Madureira!”, “Foi pros inferno, foi pros inferno!”
A vaca que conheci no Caminho de Santiago também se comunicava. Pela fenda do curral chamava amizades. E no íntimo de sua melancolia e abandono típicos da espécie, o ser se sentiu cachorro afagado, domesticado. Ser habitado. Chorou de emoção. E eu também chorei...
Domingo, 10 de Agosto de 2008
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Samba da Compostela
(Definição presente no panfleto de informações ao peregrino distribuído pela Oficina do Peregrino junto à Catedral de Santiago de Compostela)
Tantas são as vivências, reflexões e questionamentos do indivíduo que faz o Caminho de Santiago. Possivelmente em outro texto desenvolverei algumas questões plurais e contraditórias que encontrei no percurso. Por ora, resta o samba que fiz para ironizar a mercantilização explícita deste caminho secular. Lojas de peregrinos que vendem o bastão do peregrino, o chapéu do peregrino, a camiseta do peregrino; restaurantes oferecendo o menu do peregrino. Os albergues lotados, as trilhas lotadas. A galera dos 100 km (para pegar a “Compostela” é obrigatório percorrer o mínimo de 100 km). Enfim, eu escrevi esta letra enquanto a revolta batia no peito feito tambor de escola de samba, e cantava-a para recuperar o alto-astral ameaçado. Pois é... É o ecoturismo mascarado aí gente! Vamos lá, é a galera Compostelense na avenida!
Eu acordo, caminho, durmo pensando nela
O sol nem raiou e eu já estou na janela
Espiando as pessoas se vêm caminhando
Seguindo os rabiscos da flecha amarela
Compostela
Eu levanto apressado e já saio marchando
Quero ser o primeiro do bando andando
Vou de braços abertos pra ti
Compostela
Compostela
Faço dez, faço vinte ou trinta quilômetros
Paro só quando sinto o ronco no estômago
Paro para comer o menu do peregrino
São dez contos
Presuntinho, salame, tortinha e batata
De segundo vem um filezinho na chapa
Tem ainda o vinho e a sobremesa
Compostela
Eu mastigo, eu engulo só pensando nela
Pago logo la cuenta e já saio fudido
Quero recuperar este tempo perdido
Vou correndo
Com o meu mochilão, oito quilos nas costas
Quero ultrapassar a multidão ansiosa
Que veio pro Caminho na última etapa
Só pra ter
O tal certificado de participação
Ter você, Compostela, de Santiagão
Isto aqui é um negócio: peregrinação
E ainda
Se já não bastasse todo este esforço
Eu caminho, eu rezo, eu rogo, eu torço
Encontrar uma vaga para descansar
No albergue
São três contos, caminha e banho quentinho
Dormir cedo de noite e sonhar com anjinho
Para depois acordar só pra ti
Compostela
Compostela
Eu caminho, caminho, só pensando nela
Toda a cara suada
E o pé já com bolha
Minha pele queimada
Este sol tá lascado
E se chove
Isto aqui vira um caos
Água, vento e lama
Mas tu sabes fiel que é fiel não reclama
Vou de braços abertos pra ti
Compostela
Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
AVISO
APROVEITANDO QUE AS REFORMAS TRABALHISTAS AINDA NÃO ENGOLIRAM DE VEZ O NOSSO DIREITO NATURAL E MORAL AO DESCANSO, INFORMO QUE ESTOU ENTRANDO EM FÉRIAS. PARTO PARA A VIA LÁCTEA, DE BUÑUEL, E ESTAREI SEM ACESSO À INTERNET... DE QUALQUER FORMA, VOLTAREI A POSTAR NO BLOG NO DIA 4 DE AGOSTO.
UM ABRAÇO!
Segunda-feira, 14 de Julho de 2008
Projeção interrompida
Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
De Glauber Rocha
Domingo, 6 de Julho de 2008
A carta-radical de Bertolucci

A Mostra Internacional de Veneza em agosto de 1968 foi um verdadeiro campo de batalha da classe cinematográfica italiana (e internacional), intelectuais, estudantes, artistas e jornalistas contra a entidade Biennale d’Arte e o então diretor da Mostra, Luigi Chiarini. O Festival de Cannes havia sido interrompido em maio em apoio à greve geral de trabalhadores e estudantes. Protestos, greves e contestações aconteciam na Europa e no mundo. Em Veneza, o denominador comum das declarações dos sindicatos e associações de cineastas e produtores, órgãos de jornalistas e instâncias representativas de estudantes era a reforma moral da Mostra de Veneza. Ou seja, a base dos protestos consistia no repúdio ao aspecto comercial-empreendedor do evento ( o oportunismo no desenvolvimento do turismo da cidade, o festival como ponto de encontro do capital financeiro internacional para o qual o aspecto cultural é apenas um álibi, o luxo do evento, etc). Além disso, as reivindicações assinalavam para a revisão do estatuto da Mostra (datada ainda dos anos do fascismo), para a superação do caráter litúrgico de premiação (ou seja, a ideologia mercantilista da competição) e para o desenvolvimento de uma linha cultural de vanguarda, de tutela e promoção ampla e efetiva do cinema de autor. Dentre tantas medidas políticas adotadas pelos manifestantes, o boicote de cineastas ao envio de filmes ao festival foi uma das mais polêmicas.
Diversas foram as ações, os momentos e as declarações neste período. Para hoje decidi postar no blog a carta que Bernardo Bertolucci publicou no jornal “L’Italia”, em 24 de agosto de 1968. Neste ano o seu filme “Partner” havia sido selecionado para ser exibido na Mostra. Uma texto franco e hostil, que representou a cisão do cineasta com o movimento cinematográfico italiano de então. Ao lê-la se entende que não é a toa que Bertolucci não seja tão admirado pelo público italiano, ainda que seja um ídolo para muita gente no exterior...
“Eu sempre considerei suicida e autopunitivo o fervor com que muitos de meus colegas decidiram contestar a Mostra impedindo a projeção de filmes. Impedir a projeção a Veneza sempre me pareceu um gesto grave, como queimar livros nas praças. Agora que a ANAC (Associazione Nazionale Autori Cinematografici) com o seu último comunicado alargou o horizonte dos seus objetivos, redimensionando aquele representado somente da Mostra de Veneza, agora que a ANAC fez da Mostra a plataforma para uma luta muito mais vasta, agora me declaro solidário com a ANAC. Não sei como reagirá Chiarini: que ele aceite ou não é somente graças à inteligência e à paixão de sua gestão que permitiu aos autores programarem uma ocupação de trabalho dentro do festival, em que poderão debater os seus problemas sem um clima policiesco. No mesmo momento, junto com o meu filme (Partner), entrego à ANAC a minha demissão enquanto sócio da Associação. As razões da minha demissão são muitas, mas posso resumi-las em duas:
1) O cinema italiano no seu todo é o mais qualquer coisa do mundo: não o amo, ao contrário, detesto-o. Por isso não posso fazer parte de uma associação que o consagra e lhe organiza as pouquíssimas qualidades e todos os defeitos;
2) Odeio com todas as forças qualquer forma associativa de tipo corporativista. Por que o cinema italiano, do qual eu também faço parte, junto com as instituições e com as estruturas não começa a contestar a si mesmo, isto é, o seu profundo provinciano-naturalismo pequeno burguês?”
(Declaração de Bernardo Bertolucci publicada no jornal “L’Italia”, 24 de agosto de 1968).
Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
Amor de passagem

“Calma aí! Tem uma senhora aqui!”. “Oh pessoal, cuidado com a velhinha!”. Já passava da uma da manhã e o ônibus, abarrotado, parecia estar cumprindo seu rush retardatário. Jovens retornavam de bares, turistas, do passeio, torcedores desanimados comentavam a derrota do time no campeonato continental. Em cada parada, novos passageiros forçavam a entrada, exaustos de haver esperado a ocasião de poder regressar a casa. Em cada novo ponto de ônibus, o discurso coletivo se repetia dentro do veículo: “Cuidado com a senhora!”, “Atenção aqui amigo, ôôu!”, e uma voz sufocadamente bem-humorada intervinha: “Hei gente, estou aqui embaixo, me vêem?”. No meio da multidão motorizada uma velhinha de 78 anos se tornou a protagonista de todos os afetos transitórios. Cabelos brancos presos com fivela, vestido florido e bolsa à tira colo. De tão pequena não atingia sequer a altura do meu busto. O ônibus ia apressado porque o motorista também havia esperado o dia todo para voltar a casa. Naquele anseio coletivo de retorno ao lar, um tombava sobre o outro, e nas curvas improvisadas todos pendiam em coreografia para o mesmo lado. E a velhinha ali embaixo, no centro do ônibus, todo o tempo a falar e rir em plongée. Fez-me recordar a minha avó, na fala e no gesto, e no regozijo tímido de se tornar o núcleo das atenções. A ternura me veio como picada de borrachudo e rapidamente se espalhou pelo corpo numa titilação de puerilidade. Durante todo o trajeto conversamos e nos divertimos, trocamos olhares e cuidados com cumplicidade familiar. Quando chegou o momento de eu descer, experimentei a tristeza de despedir-me de uma avó desconhecida, mas conhecida. Já na calçada, olhei o ônibus que se afastava e me arrependi de não ter pedido à velhinha o seu número de telefone, ou mesmo de não lhe ter perguntado sobre netos e as visitas de domingo. Enquanto o ônibus partia, percebi que já sentia saudades daquela senhora e entendi que o amor de passagem me transportou a outros viveres nostálgicos. Dentro do ônibus vi partir pela segunda vez a minha avó...
(Imagem: Women Running on the Beach. Pablo Picasso, 1924)
Domingo, 29 de Junho de 2008
Dos homens de temperamento sórdido

O império chinês está chegando...
Autoritário, neurótico, inumano.
São os filhos da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung
e dos carros armados que comandaram, em Pequim,
o massacre na Praça Tienanmen em 4 junho de 89:
ao menos 1300 estudantes mortos.
As Mães da Praça de Tienanmen
lutam para que o governo revele o exato número de vítimas
e a versão oficial dos fatos daquela noite
que 19 anos depois ainda são tidos como segredos de Estado.
O reich chinês está chegando...
São os filhos do Socialismo de Mercado,
da mão-de-obra semi-escravista,
e da mais-valia rebatizada.
Estão ocupando as grandes cidades mundiais.
Comprando apartamentos, investindo em negócios vários.
Paris, Madrid, Roma, Berlim, Londres, Sidney, São Paulo, N.Y.
A neurose da rentabilidade e a histeria do consumo
caracterizam os filhos ocidentalizados da China Miliária.
Eles caminham pelo mundo com all star no pé e filmadora na mão,
capturam tudo o que vêem, devoram imagens e mercadorias.
No reich chinês o mandarim não será a língua oficial
porque os jovens filhos da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung
querem mesmo é ser ocidentais.
O império chinês será o filho insurgente do império americano, que
preocupado, já está tentando desmoralizá-lo.
Por isso a liderança na campanha internacional a favor do Tibet.
Há sempre que desconfiar dos discursos libertatórios norte-americanos porque as reais entrelinhas são sempre metonimizadas:
Bin Laden, Saddam Hussein, Hugo Cháves, Farc’s, Irã nuclear...e Tibet.
O reich chinês será o filho insurgente do império americano;
E Bush, a bucha de canhão dos tanques armados dirigidos
contra os futuros protestos estudantis nas praças internacionais.
(Imagem: clássica foto de um rapaz à frente dos tanques a caminho da Praça Tienanmen, em Pequim)
Terça-feira, 24 de Junho de 2008
O incesto simbólico de Pasolini

“Édipo Rei” de Pasolini, filme realizado em 1967, pretende ser fundamentalmente a elaboração de uma lenda, e não a ilustração de um mito. Esta lenda que Pasolini intenta construir em seu filme é a sua própria história, uma auto-biografia simbólica. Figurinos e cenários idealizados, constantes referências de uma cultura popular campesina, paisagens da região de Friuli, onde Pasolini passou a sua infância, e depois Bolonha, onde o artista começou a escrever os seus primeiros poemas. “Édipo Rei” evoca simultaneamente o mito (fatalidade) e o complexo freudiano (amor pela mãe) que são criações culturais cronologicamente distintas, mas que Pasolini sintetiza para resolver as suas contradições. Em “Édipo Rei” Pasolini se confronta com a literatura e a psicanálise, e com o seu próprio complexo de Édipo. O amor puro, obsessivo e mítico pela mãe é um dos sentimentos pasolinianos que mais me emocionam. A escolha do artista em ter a mãe interpretando a Virgem Maria em seu filme "O Evangelho Segundo São Matheus" é a metaforização explícita do seu afeto por ela. Um sentimento exposto tantas vezes, em diversas linguagens, mas infinitamente incompreendido pela sociedade italiana de então, catolicamente provinciana. Erotismo sacro e modernidade lingüística são marcas deste artista acossado, porque profético, humanista e homossexual.
Eu comentei sobre o filme para introduzir outra obra em que Pasolini declara seu amor incestuosamente sagrado pela mãe: é o poema “Supplica a mia madre”, presente no livro “Poesia in forma di rosa”, lançado pela primeira vez na Itália em 1964. Abaixo transcrevo o poema (traduzi ao português, mas deixo-o também em italiano, caso algum leitor o deseje ler na língua original). Com esta postagem cumpro a homenagem que há tempos queria dedicar ao sentimento incompreendido deste artista que admiro tanto.
Súplica a minha mãe, de Pier Paolo Pasolini
É difícil dizer com palavras de filho
aquilo que no coração se parece bem pouco comigo.
Tu és a única no mundo que sabe daquilo que no meu coração
existiu sempre, antes de qualquer outro amor.
Por isso devo dizer-te aquilo que é horrível reconhecer:
é na tua graça que nasce a minha angústia.
És insubstituível. Por isso é condenada
à solidão a vida que me deste.
E não quero ser sozinho. Tenho uma infinita fome
de amor, do amor de corpos sem alma.
Porque a alma está em ti, és tu, mas tu
és minha mãe e o teu amor é a minha escravidão:
Passei a infância escravo deste sentimento
elevado, irremediável, de uma diligência imensa.
Era o único modo de sentir a vida
única tinta, única forma: agora terminou.
Sobrevivemos: e é a desordem
de uma vida renascida fora da razão
Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Estou aqui, sozinho, contigo, em um futuro abril...
(Tradução: Anahí Borges. Imagem: Pasolini com a mãe)
Supplica a mia madre
É difficile dire com parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.
Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d’ogni altro amore.
Per questo devo dirti ciò ch’è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.
Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.
E non voglio esser solo. Ho un’infinita fame
d’amore, dell’amore di corpi senza anima.
Perché l’anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:
ho passatol’infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.
Era l’unico modo per sentire la vita,
l’unica tinta, l’unica forma: ora è finita.
Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.
Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile...
Sábado, 21 de Junho de 2008
Fim de romance

Era final de tarde. Havia um vento forte, daqueles que te faz perder o centro do passo. Levanta a saia, despenteia os cabelos, vira as páginas do livro carregado no braço. Eu caminhava titubeante quando vi um corvo que voava esquivando-se do tráfico aéreo de andorinhas. Na primavera mediterrânea as andorinhas se divertem em quotidianos malabarismos atmosféricos. O tal do corvo voava tranqüilo, as asas abertas e aplainadas estavam preparadas para uma eventual aterrissagem de emergência. Os corvos são animais sérios,frequentemente mal-humorados, e sempre em alerta. Naquele caos aéreo de andorinhas, o corvo se apaixonou por uma "corva" que vinha em sentido diagonal ao seu. Amor à primeira vista. Eu vi o seu esforço em tentar alcançá-la, mas o vento forte parecia boicotá-lo: o corvo ia, subia, descia, pendulava. A "corva" também se entusiasmou, mas igualmente não conseguia chegar até o seu companheiro. Eu vi quando os dois corvos ansiosamente apaixonados batiam as asas velozmente, agitadas, mas parados no lugar a menos de um metro de distância um do outro porque o vento forte os rebatia. Olhavam-se frente a frente e lutavam contra a ventania que instituía uma barreira transparente e autoritária na atmosfera primaveril. Até que desistiram, resignados, e cada um seguiu seu vôo. As andorinhas-acrobáticas se divertiam com o vento mediterrâneo. A primavera italiana é uma época lúdica, ligeira, perfeita à folia das andorinhas. Não é a estação propícia ao amor bem-composto dos corvos.
(Imagem: Campo de trigos com corvos. Van Gogh, 1890)
Quarta-feira, 18 de Junho de 2008
O tal luxo de Maria Rita Kehl
"Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo ao dizer isto.
Culpa da nossa velha francofilia (...) Se eu disser “fui a Paris”, o interlocutor responderá sempre: “que luxo!”. E se contar: “fui assaltada em Paris”, ou “fui atropelada em Paris”, é bem provável que escute: “mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!”".
(...)
"É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vêndome ou dos Champs Élisées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem medo o corpo a corpo com a cidade, com a multidão".
(...)
"O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro – seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de que? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, estes medos fazem parte da condição humana".
(..)
"O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante, sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi “viver numa sociedade sem violência”, já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não predomine sobre todas as outras". (...)
PS – para ler o texto na íntegra clique: http://www.mariaritakehl.psc.br/resultado.php?id=175
Domingo, 15 de Junho de 2008
Caminho de Kiarostami
Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
Um americano em Roma

Um americano em Roma. 68 anos depois...
O Bucha de canhão chegou! O Bucha de canhão chegou!
Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
Gay Pride 2008.d.C

A 14ª edição do Gay Pride romano aconteceu no último sábado e reuniu 500 mil pessoas. Durante toda a semana alguns focos de tensão pontuaram a relação das entidades de representação GLBTS com o novo governo de direita de Gianni Alemanno , candidato pela Coligação de Berlusconi e eleito prefeito de Roma em abril. Dentre algumas questões denunciadas por membros da organização do Gay Pride como medidas políticas retrógradas e moralistas desse novo governo estavam : a solicitação para que os manifestantes se comportassem bem na passeata, vestindo-se adequadamente, ou seja, nada de nudez e exageros cromáticos e a modificação do tradicional percurso do evento. A mudança de trajeto foi justificada pelo fato de que a Basílica Laterana, situada na Piazza San Giovanni, habitual ponto final da manifestação, realizaria uma apresentação do seu coral às 20.30h e, deste modo não cairia bem misturar os guetos.
Enfim, e apesar de tudo, o Gay Pride aconteceu. Manifestantes recordavam no alto falante dos carros de som que o Vaticano é um Estado autônomo dentro do território itálico, e que, portanto, a Itália deveria se libertar da escravidão católica. Caminhar aos gritos de liberdade e igualdade pela Via dei Fori Imperiali, atravessando as ruínas do antigo Império Romano, o Coliseu, templos, arcos, e tantos outros monumentos históricos é uma experiência peculiar, caótica, mística. Marchar ao som da música eletrônica e da aclamação política intercaladas com os sinos de tantas igrejas que badalam pontualmente às 17h e 18h é sem dúvida uma vivência insólita. Centenas de turistas nas calçadas, parados, obcecados em tirar fotos. Manifestantes e monumentos históricos eram uma coisa só aos olhos dos turistas consumidores de imagens. Europeus e chineses com suas câmeras fotográficas e filmadoras se misturavam com jornalistas e repórteres que transmitiam o evento ao vivo pela televisão. A passeata teve seu fim na Piazza Navona, onde inclusive está o palácio de estilo neo-clássico da Embaixada Brasileira. No palco montado, o evento foi encerrado por representantes de diversas organizações GLBTS que hastearam suas bandeiras de lutas e energicamente proclamaram discursos em defesa da paridade e dignidade sexuais e pela laicidade do Estado.
Jogado no chão, entre os paralelepípedos da praça, encontrei um flyer de uma organização chamada gaytoday. Transcrevo-o logo abaixo, exatamente como é, com as suas sete cores:
Todos os gays são sensíveis
Todas as lésbicas são caminhoneiras
Todos os gays são ricos
Todos os filhos de gays serão gays
Todas as trans são prostitutas
Todas as lésbicas têm as unhas curtas
Todos os gays são de esquerda
Todas as lésbicas jogam futebol
Os bissexuais não existem
Todos os homofóbicos são heteros
Todo Gay Pride é carnaval
Os gays [NÃO] são todos iguais!
E você, que gay é?
Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
Sobre "Gomorra"
Escrevi um artigo sobre o filme na Cinequanon.
Clique: http://www.cinequanon.art.br
Terça-feira, 3 de Junho de 2008
Gânsgster Van-Goghiano
Sábado, 31 de Maio de 2008
Eu no quadro de Gauguin
Improvisadamente aconteceu que de roteirista passei à atriz do curta-metragem que rodamos esta semana. Uma história ambientada em um camping, personagens icônicas, mitológicas, quadros fixos coloridos, mundo pictórico. Meu amigo Pasquale, o diretor, possui o imaginário Pasolini-felliniano. Bellissimo! Escrevemos o roteiro em um processo amistosamente colaborativo no qual participamos: dois roteiristas, o diretor e o montador. No set, o fotógrafo reclamou da presença inútil dos roteiristas. O montador também no set. Raridade! “Mah che cazzo! A che servono questi?”. E a trupe unida não arredava o pé. E eis que a atriz que faria a mulher saindo da barraca não veio, e sobrou para mim! Assim como o ator que faria o bêbado não compareceu e sobrou para o outro roteirista interpretá-lo, resultando uma personagem incrível.
A câmera Arri 35mm apontada na minha cara, dezenas de pessoas ao redor me olhando. Minha primeira imagem estampada em 35, improvisada. A claquete. Azione! Realizamos o curta no Parco dell’Acquedotto onde Pasolini filmou o Mamma Roma há mais de quarenta anos. Eu estava ali no set utilizado uma vez pelo meu ídolo-amado-sagrado. Meu coração debandado. Eu deveria estar olhando o camping que amanhecia em um dia de sol. Improvisei um chiclete, o galhinho de grama era a minha distração, inventei alguém que passava e meu olhar matinal que a acompanhava, me lembro do vento e da minha vontade tímida de rir.
Funcionou, o pessoal gostou. Sério mesmo? Perguntei insegura. Disseram que a composição da imagem parecia um quadro do Gauguin. E então refleti sobre esse meu não fazer nada que resultou num gesto minimalista espontâneo, e que deu certo. O minimalismo é para mim a grande força no cinema. Estar ali foi uma experiência particular de pensar, através da vivência, no detalhe na imagem em um plano próximo: cada pequeno gesto pode ser um exagero, e o diretor que trabalha com um ator na chave do “agora vamos interpretar” é aquele que mata o cinema. Depois que eu e o Andrea substituímos os atores ausentes, Pasquale ainda brincou com o fotógrafo que reclamou da nossa presença no set: “É, viu, até que é útil haver roteiristas no set”. E todos riram.
(Foto de Mauro Rossi)




